Há alguns anos, quando adquirimos um apartamento, pensei em como seria morar no décimo sétimo andar de um prédio. Sinceramente, a única coisa em que pensava era: “não mudo para este apartamento antes de ter uma rede de segurança”. O motivo da minha preocupação é meio óbvio, mas, para auxiliar na compreensão, saiba que sou bem estabanado.

Depois de poucos meses, descobri algumas vantagens de morar em um andar alto, como a ausência de ruídos excessivos, uma vista fantástica e a falta de insetos e outros bichos no cotidiano. Claro que existem desvantagens; uma delas é o vento. Qualquer fresta na janela me faz pensar em como seria o Morro dos Ventos Uivantes.

Preciso voltar às vantagens para não perder o rumo da conversa, em especial, à ausência de insetos. Faz muito tempo que não via uma formiga dividindo o espaço da minha residência. Lembro-me de uma invasão de formigas quando morei no Butantã, em São Paulo, mas essa também é outra história. Como disse, fazia muito tempo que não via formigas no meu convívio, mas ontem essa realidade mudou.

Lembra da invasão de formigas que comentei? Então, ela não aconteceu. Na realidade, ontem aconteceu algo diferente na minha vida, e esse é o motivo destas palavras.

Sempre tive uma boa visão, mas, com o passar do tempo — sim, o implacável tempo —, minha visão começou a apresentar algumas mudanças. Lembro-me como se fosse ontem do dia em que não consegui ler as especificações de um resistor no Instituto Monitor, quando trabalhava na Uniube. Naquele ano, eu já lecionava Física e Biofísica e, de pronto, pensei: “Oi, Presbiopia, bem-vinda aos meus 40 anos”.

A presbiopia gradualmente foi diminuindo minha capacidade de enxergar de perto, um fenômeno mais do que natural. Assim que percebi a mudança, marquei uma consulta com o oftalmologista e comecei a usar óculos. Como minha visão para médias e longas distâncias continuou bem eficiente, não percebi a degradação gradual da visão para curtas distâncias.

No último sábado, após uma consulta, recebi meus óculos novos, e foi aí que redescobri um mundo cheio de texturas, cores e contrastes que, pouco a pouco, haviam se perdido. Parece bobagem não perceber como a vida vai, aos poucos, tornando os momentos mais turvos — a menos que sejamos mais atentos. Hoje, aqui no computador, tenho um monitor maior, mais cores e contrastes… e também formigas na varanda do meu apartamento.

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